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A Sala de Recursos Multifuncionais do Centro de Educação de Jovens e Adultos - CEJA Ana Vieira Pinheiro é um espaço onde o AEE- Atendimento Educacional Especializado acontece considerando as necessidades específicas do aluno para complementar e/ou suplementar a sua formação, identificando, elaborando e organizando recursos pedagógicos e de acessibilidade que favorecem a inclusão e eliminam as barreiras para a plena participação dos alunos com deficiência, fortalecendo sua autonomia na escola e fora dela.
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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Uma posição Maior


 Izabel Maior*

Você, e quem mais desejar, pode dar publicidade à minha opinião com referência ao tema educação inclusiva, como convicção e como diretriz de política pública que sempre defendi. Mesmo antes de chegar à Brasília, ter construído a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência e ocupado um dos cargos mais cobiçados da gestão pública federal, a experiência prática de professora me dizia que inclusão começa no primeiro espaço institucional ao qual todas as pessoas precisam ter acesso em bases iguais - a escola.

Prezados,

Quero voltar alguns anos de luta para lembrar que a situação revelada no "preferencialmente" fazia algum sentido na década de 80, quando o modelo da inclusão era apenas uma possibilidade, até mesmo pela falta de investimento da área governamental em políticas sociais, entre elas a de educação inclusiva para as pessoas com deficiência.

Atravessamos tempestades até que se firmou o documento "educação especial na perspectiva da educação inclusiva" no início do século XXI. O debate de ideias e, muitas vezes, o confronto de ideias e interesses parecia ter encontrado convivência com a instituição do AEE, a dupla jornada e o financiamento da rede não governamental pelo FUNDEB. Surgiram as iniciativas do PDE e da Agenda Social de Inclusão das PcD em 2007, com forte apoio à educação especial inclusiva, em ambiente inclusivo na rede regular de ensino, com acessibilidade, capacitação dos professores e tecnologia assistiva.

Talvez algumas pessoas não conheçam a importância da participação do Brasil nos debates na ONU em 2005 e 2006, quando a redação da CDPD chegava ao ponto que, mal comparando, agora se apresenta a Meta 4 do PNE. Sustentamos a educação inclusiva em todos os níveis de ensino a despeito de potências hegemônicas pretenderem a educação especial separada,  particularmente para as pessoas com deficiência intelectual. Um dos motivos que nos moveu para garantir a educação inclusiva na CDPD foi a certeza de que o texto da Convenção seria adotado como emenda à Constituição e deixaria para a história o termo "preferencialmente", por estar culturalmente e legalmente superado como o foi com o advento do Decreto 6949/2009.

Mas o que se vê é uma redação NÃO consensuada na qual o governo federal desiste de sua própria construção política e opção pela educação inclusiva e resgata a posição dúbia do "preferencialmente", parecendo se envergonhar das escolhas anteriores.

Não existe a possibilidade de "preferencialmente" após 2009. O único texto constitucional referente à educação das pessoas com deficiência é o texto da CDPD, o qual é claro ao adotar a educação inclusiva.

Reinserir a dúvida de comando em um plano nacional da educação, de horizonte decenal, é abrir mão de muitas crianças e jovens com deficiência que podem não receber a educação inclusiva como aconteceu no passado, mesmo na vigência da CDPD no Brasil.

Não aceito e não pactuo com as manobras políticas comandadas pela equipe a frente do MEC e tampouco com pessoas que em nome do movimento apresentam uma proposta de redação da Meta 4 divorciada daquela que foi debatida e saiu vencedora na CONAE. Alguns dos que se sentaram à mesa de negociação se dizem conhecedores do espírito da CDPD, mas não é esse o resultado alcançado na redação proposta para apoio junto ao relator.

É bem mais digno lutar até à votação final sem abrir mão da defesa da educação inclusiva. Não se  deve esquecer que setembro é o mês da nossa luta e ainda há tempo de não aceitar o retrocesso do rolo compressor de sempre.

Saudações,

Izabel Maior

Caso você não saiba quem é Izabel Maior, leia aqui

Descrição da imagem: foto de Izabel Maior falando num microfone, em foto da Revista Sentidos
Fonte: http://xiitadainclusao.blogspot.com.br/2013/09/uma-posicao-maior.html

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A cor da alma



Meu café é preto, normalmente muito preto. O que lhe dá corpo é o pó. No meu caso, extra-forte.

Meu leite é branco, como deve ser todo leite. O que lhe dá corpo é a lactose.

Nem um, nem outro existiriam sem água que lhes dá fluidez e vida. Desidratados são apenas poeira inerte.

Mesmo o mulato pingado, mais ou menos escuro ao gosto de cada um, não seria nada se não fosse composto essencialmente de água.

E a água é transparente. Incolor dizem os químicos.

Eu sou branco, palidamente branco, quando muito avermelhado se exposto excessivamente ao sol.

Meu amigo Nivaldo é negro. Bastante negro, exposto ou não aos raios ultra-violeta.

Branca é só a minha casca, como é negra a casca do Nivaldo. Humanos, como somos, nossas almas, como a água, são transparentes.

Dão vida ao corpo, como a água dá vida ao café e ao leite. Alma não tem cor, sua qualidade não se define pela cor da pele, invólucro perecível da existência.

O que não significa que muitos brancos ainda insistam em atribuir almas brancas aos negros que eles consideram de melhor qualidade.

Como se a cor da pele e, nesse caso, da alma, definisse a qualidade ou a humanidade de um ser.

Pior ainda se considerarmos que são justamente as mesmas pessoas que se dizem igualitárias e sem preconceitos que falam essas bobagens.

E, ao falar tamanha asneira, acabam por condenar humanos de outras fisiologias e anatomias que não às suas, à exclusão da sociedade que dizem ser de todos.

Humanos somos. Uma só raça, uma só identidade, um único conjunto de deveres e direitos éticos.

Diversos na apresentação, nas necessidades, nas habilidades.

O que passar disso é discriminação.


Descrição da imagem: uma série de pequenas fotos de mãos negras e brancas realizando diferentes movimentos em conjunto.


Fonte: http://xiitadainclusao.blogspot.com.br/

terça-feira, 3 de julho de 2012

Matéria sobre um jornalista surdo. Muito interessante!

De ouvidos na notícia

Por mais que as “tecnologia tudo” tenham evoluído um bocado, para repórteres o aparelho telefônico ainda é instrumento fundamental para o trabalho.

Muito do que a gente precisa para construir uma reportagem se consegue a partir de uma ligação. As “internets” ajudaram bastante, mas tem situações em que só o aparelho do seu Gharam Bell resolve.

Dito isso, digam pro tio, como um jornalista pode ser surdo? “Ah, tio, se for surdão total, acho quase impossível, viu”....

Mas não é... e tô vivo para servir de prova disso.. mas bora lá explicar melhor a história.

Escutar apenas 25% do que os mortais comuns ouvem já é pra deixar o brasileiro em uma situação parecida com a velhinha da Praça é Nossa, lembram? Rindo a 
toa...

Pois foi justamente com essa condição que recebi na redação da Folha o José Petrola, um repórter que subverte qualquer lugar comum que se projete sobre um “repórter surdo”.


O Zé começou aqui no jornal como trainee, no ano passado. Quando nos trombamos pelos corredores do “trampo”, ele me cumprimentou, disse que era meu leitor, massageou meu ego Convencido, mas eu não reparei nada, nada de diferente nele, apenas que falava um pouco mais baixo...

Só depois de um tempo que fui descobrir que o Petrola, formado na USP, fã de radiojornalsimo (só para ser um pouco mais do contra Tonto) e quase concluindo, em grande estilo, um mestrado, era prejudicado dos ouvidos...

Neste comecinho do ano, o Petrola me pediu uma oportunidade de quebrar pedra comigo. E não é que, no mesmo dia que nos falamos, rolou uma vaga?! Não pensei duas vezes e o indiquei para ajudar na equipe.

Eu, sinceramente, não sabia como ele faria, mas se ele se prontificou a trabalhar, algum jeito ele daria. E ele deu e mostrou que é um repórter como outro qualquer...

Acho essa dica fundamental: antes de lançar conceitos de habilidades sobre as pessoas com deficiência, seja ela qual for, conheça, pergunte, saiba... não julgue, não ache, não coloque as suas inabilidades na ficha do outro....

O resto é o Zé Petrola quem conta... e explica! Ah, em tempo, quem quiser conhecer as dicas para não pagar mico com um surdo, clica no bozo! Brincalhão
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Tenho perda auditiva de 75% nos dois ouvidos. Isto significa que, para escutar, preciso de dois aparelhos, um em cada ouvido. Desde que eu tinha um ano e meio faço uso deles e consegui aprender a falar com o apoio da família e o acompanhamento de uma fonoaudióloga.
Graças a isto, entrei para o time dos surdos oralizados - aqueles que, com a ajuda de aparelhos auditivos, falam em português e não precisam da língua de sinais. (Do tio, aqueles que a Lak e a Sô Ramires vivem batalhado pelo reconhecimento. Para saber mais, clica na florzinha Sorte).


Gente como eu escuta normalmente e só tem dificuldade em situações como falar ao telefone, conversar em lugares barulhentos ou assistir a filmes dublados.
Foi assim que consegui estudar sempre em escolas normais, junto com as outras crianças. E, graças ao apoio da família e várias oportunidades, consegui me formar em jornalismo na USP.

Ano passado, participei do programa de trainees da Folha. Para quem não conhece, é um curso muito legal que forma jornalistas para trabalhar na redação.
Em janeiro, trabalhei na Agência Folha, com o Jairo Marques, fazendo apuração à distância de notícias que ocorrem fora de São Paulo.


Agora vocês devem estar se perguntando: como assim, repórter surdo? E ainda por cima fazendo a apuração das matérias pelo telefone?
Para começar, os aparelhos auditivos têm uma programação especial para usar no telefone.

Antes de fazer ou atender uma ligação, aperto um botão que aumenta o volume. Assim fica mais fácil usar o aparelho e e eu consigo até entrevistar aquele político lá do Amazonas que precisa ser ouvido para a minha matéria no jornal.
Segundo, existe um transmissor FM que funciona como uma espécie de “fone de ouvido sem fio” para os aparelhos. Se eu gravo uma entrevista e quero ouvir a transcrição, basta conectar o transmissor no gravador.

É como aqueles fones Bluetooth que algumas pessoas usam para atender o celular dirigindo. Também uso para ouvir música quando estou de folga.
Quando escolhi o jornalismo, muitos me falaram que era uma profissão impossível. Mas eu não sou de ficar parado e nem vejo a surdez como obstáculo.

É verdade que de vez em quando passo uns perrengues, mas nada que me impeça de trabalhar.
Qual é o meu recado? Primeiro: nem todo surdo precisa de Libras! Há muitos surdos oralizados, que falam e ouvem em português com a ajuda de implantes ou de aparelhos auditivos.
E fica aí o meu último recado: deficiência não pode ser motivo para ninguém desistir de seus sonhos! Precisamos, sim, botar a boca no trombone pelos nossos direitos.

Sei que muita gente não teve as mesmas oportunidades que eu. Aparelhos auditivos são caros e a manutenção é complicada (mas isto já seria tema para outro post).

Também há muitas escolas que ainda resistem a ter um surdo oralizado como aluno. E é por isso que estamos aqui brigando por um mundo mais inclusivo.

*Fotos de arquivo pessoal
Escrito por Jairo Marques 
Fonte: http://assimcomovoce.folha.blog.uol.com.br/

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Um lindo texto que fala de amor, educação e autismo

Hoje, enquanto esperava a chegada de meus alunos, resolvi ler o que meus colegas blogueiros com interesses em comum tinham postado. Deparei-me com um texto bem escrito e bem sentido de uma mãe muito especial. Posto aqui, pois sei que como eu certamente vocês serão enriquecidos com essa experiencia. Tenham todos um bom dia e uma boa leitura.

Patinhos feios sobem nos grilhões do céu ou são autistas?


  
     Escolhi, por causa do amor, ser mãe de um patinho feio que se transformou em cisne.
     Dizia o mundo que meu patinho feio vivia num mundo de patologias complicadas e que nunca descia do seu céu para cumprir asas e bicar seu lago, pegar peixinhos e algas. 
     Esse meu patinho era diferente, por assim dizer.        Asas encurvadas, bico vermelho e olhos distantes.      Um olhar gratificante, às vezes, para mim sofridos a maior parte do tempo, lindo e meigo para o lago que lhe inspirava. Sua imagem refletia em si mesmo. 
     Não deixava de ser imponente, como a história do patinho feio que virou cisne numa realidade bem diferente.
     Se o meu amor não fosse tão intenso e tenaz, eu diria que teria motivos para desânimo. Afinal, o nosso raciocínio ainda está fixado apenas em labutas do dia a dia e não consegue ler nas entrelinhas das ondas do lago.
     E patinho não nada em grandes oceanos, em grandes mares, em grandes rios, em grandes lagoas, não fica perto de pororocas. Patinho que é patinho nada em pequeno lago, cobre-se de pequeno manto de água e contorna o “pound” em passos lentos do seu compasso estreito.  De vez em quando alça pequeno voo entre arbustos das margens e fica por ali.  Mas sempre sozinho, olhando a sua imagem refletida na imagem da sua água cristalina.
A minha preocupação com meu patinho não residia em doenças físicas ou genéticas, em seguir protocolos, padrões de condutas médicas, calendário de vacinas,  lidar com famílias e suas dificuldades.  Pato que é pato não são seres complicados fabricando seres a cada dia mais complicados.  É apenas um pequeno ser que precisa de asas para voar e pés para remar.
     Claro que o mundo está cheio de boas intenções e reparam  em tudo. Claro que isso ainda vai desembocar em insolente e seletiva encrenca das boas – muitos belos patinhos na aparência tornam-se patinhos feios sem que o sejam.
     Mas não como o meu cisne. O foco das minhas intenções era a educação e instrução em ensiná-lo a ir  ao mais alto grilhão do céu, buscar a linda estrela e vivenciar a mais pura educação.
     Uma educação focada quase que exclusivamente na instrução fundamentada – como pouca ou nenhuma preocupação em saber quem somos nós e o que fazemos aqui. Enfim, ter apenas o interesse em educar para a vida; querer transformar minha ninhada de patos em número de três, passando pela fase de marrecos e de gansos, em cisnes num passe de mágica. Mas com sacrifício de quem utilizou as asas.
     Ambicionamos oferecer aos nossos filhos o que a vida nos negou.  Nutri-los com disciplina, cuidados, atenção e amor.  Daí, podemos criar fortes e poderosos seres; sem sofrimentos  em valores e aquisições,  pois, além de tudo foram patinhos feios que a vida ensinou ser  cisnes.
     Por quê? Para que? Não teria significado refletir que os episódios ocorrem por misteriosos desígnios, apenas, porque metade da tarefa é nossa. Afinal somos candidatos a sensíveis cisnes (que alguns avocam como seres angelicais, mães e pais experientes).  A vida não é uma obra alquebrada, mas em direção, constituição e reconstrução.
     E, assim, biografia afora, o meu pequeno e isolado patinho, que os outros patolenses estão aprendendo a amar  com fervor, vai vida afora tranquilo e feliz. Olha para um lado e para outro, garboso, não entende a aflição da sociedade patolense que o rodeia e continua a aprender a nadar.
     E eu?  Sou capaz de imitar uma série de ações que ultrapassam as  minhas próprias competências, mas somente dentro de limites da patolândia.
     Patinho lá, patinho aqui, estou começando a aprender o que seja o autismo. É como o meu cisne se vê refletido em seu lago, querendo ir para os grilhões do céu. Basta acompanhá-lo e aprender com ele.                                    Somente com ele.
FONTE:
Silvania Mendonça Almeida Margarida
Mãe do André Luís Rian
Autista

terça-feira, 26 de junho de 2012

Em terra de cego, quem tem olho pode ser escravo!


30/05/2012 - Sonia B. Hoffmann.
 
É corriqueiro o dito popular "em terra de cego, quem tem olho é rei". No entanto, uma análise realista da situação nos mostra claramente um equívoco nesta afirmativa. É mais fácil que torne-se um escravo do que propriamente um rei.
Esta condição é cronificada, se for uma pessoa castradora, de personalidade servil ou adepta do pensamento de que os deficientes visuais são incapazes e sem possibilidades para providenciarem até mesmo a satisfação de necessidades e vontades primárias no que diz respeito aos cuidados pessoais e à administração doméstica.
Há muitos pais e parentes que, desde a infância da pessoa cega ou com baixa visão, colocam-se na posição de cuidadores ou tutores onipresentes, enredando-se na vitimização e causando, com esta postura, um mal estar no relacionamento parental e um sentimento de piedade ou de indiferença nas outras pessoas.
Por sua vez, em função deste comportamento do outro social, é possível que a pessoa com deficiência visual também desenvolva sentimentos egoicos fragilizados ou super fortalecidos que, ao longo do tempo, provocam o adoecimento das inter-relações e até seu isolamento social. Ao sentirem-se reféns, é provável que muitos Inconscientemente tornem-se submissos, insatisfeitos, ou agressivos com aqueles que julgam responsáveis por semelhante condição.
José Espínola Veiga , em seu livro A vida de quem não Vê, ilustra brilhantemente a condição de sequestradores de vivências que muitos pais e parentes adotam em relação à pessoa cega ou com baixa visão:
"O filho vai de 3 para 4 anos, e nada se lhe ensina. - Coitadinho, deixa! ... Mexem-lhe o café, picam-lhe o pão, põem-lhe a comida na boca, descascam-lhe a banana, deixam-no que meta a mão no prato. - Coitadinho! Já basta o que ele sofre!... E a criança não sofre nada com a falta da vista ... Sofrerá, sim, mais tarde, a consequência dessa educação mal dirigida."
Vários grupos familiares são condescendentes e mesmo irresponsáveis na orientação e instrumentalização de pessoas cegas com os conhecimentos e informações sobre o desempenho e o modo de realização de atividades da vida diária, afrouxando comportamentos disciplinadores e dispensando a aquisição de hábitos saudáveis de condutas para seus filhos, irmãos ou parentes com deficiência visual. Com isto, parecem esquecer que não estarão eternamente disponíveis, que seus parentes com deficiência têm o direito de construírem-se por vias alternativas de desenvolvimento e que o outro social não poderá ou terá vontade de responsabilizar-se pela solução de problemas criados pela imprudência ou pela superproteção alheia.
Como profissional da área da educação e da reabilitação de pessoas com deficiência visual, ouvi muitos depoimentos e relatos de pessoas que enxergam sobre seus sentimentos diante do comportamento de muitos cegos, enfatizando principalmente sua maneira de alimentar-se, o seu vestuário e a negligência com sua aparência pessoal. Muitos afirmaram que evitam almoçar, jantar ou fazer qualquer tipo de lanche junto com uma pessoa cega ou com baixa visão, pois suas experiências foram lastimáveis.
Alguns disseram do seu sentimento de pena ao verem pessoas cegas vasculhando no prato ou na mesa pedaços e restos de alimentos com suas mãos, sem utilizarem faca, garfo ou colher quando necessário e como previdência. Muitos comentaram sobre o sentimento de impotência ao verem que uma pessoa cega pode levar, com frequência, o garfo ou a colher vazia à boca porque os alimentos se desprenderam ou caíram do talher durante o trajeto. Outros comentaram sobre a repugnância sentida ao verem pessoas cegas ou com baixa visão levando à boca pedaços enormes de alimentos, mastigarem de "boca aberta" e sem usarem adequadamente sua arcada dentária, deixarem alimentos caírem da boca, falarem de "boca cheia" ou fazerem barulhos ou ruídos excessivos na mastigação e ingestão de líquidos ou alimentos cremosos.
Relativamente ao vestuário, muitas pessoas relatam que percebem haver uma certa negligência ou descaso da pessoa cega com a combinação de cores, texturas, adequação e limpeza da roupa, do calçado e de possíveis acessórios. O mesmo afirmam sobre os cuidados com a aparência de muitos cegos, especialmente quanto à limpeza e corte das unhas, escovação de dentes, limpeza do nariz e da prótese ocular, quando presente.
No entanto, pessoas cegas também relatam sobre os seus sentimentos na realização de atividades rotineiras e muitas afirmam que evitam alimentar-se em público ou participarem de encontros e festas, pois sentem-se inseguros, envergonhados e que não estão preparados para conviverem socialmente com outras pessoas que não sejam os pais, os irmãos, parentes ou cônjuges. Referem,também, que evitam a diversificação de cores e texturas em seu vestuário, pois temem o ridículo ou acharem-se "descombinantes", mesmo que a moda nem sempre esteja apontando tal preocupação. Esta moda, muitas vezes, é compassiva com aqueles que enxergam, mas pode ser perversa com aqueles que não veem.
Dificilmente, entretanto, são encontrados familiares, amigos ou professores que mantêm uma conversa franca e adequada com a pessoa com deficiência visual sobre sua maneira de alimentar-se, vestir-se ou cuidar da sua aparência. Da mesma forma, dificilmente são encontradas pessoas cegas ou com baixa visão que aceitam estes comentários e estas informações com naturalidade porque acostumaram-se ou foram acostumadas à displicência ou descaso, melindrando-se ou magoando-se diante da menor contrariedade.
Contudo, já é hora de todos nos alertarmos para a inclusão do respeito, da sensibilidade e da generosidade em nossas inter-relações e, urgentemente, adquirirmos o hábito de sairmos da nossa posição e nos percebermos na condição do outro, exercitando dificuldades, possibilidades, papéis e funções - sejam elas de reis ou de escravos.


Permitida a divulgação e a reprodução deste material desde que citada a fonte: Diversidade em CenaSite Externo..
Texto disponibilizado no jornal Contraponto, da Associação dos Ex-alunos do Instituto Benjamin Constant- Maio de 2012.

Desenvolvimento sustentável e pessoas com deficiência.

20/06/2012 - Izabel Maria Madeira de Loureiro Maior*
 
Ao falar sobre desenvolvimento sustentável, não consigo separar o componente humano do ambiental. O planeta poderia viver intocável sem os humanos? Não poderia! Sem nós o planeta estaria incompleto, pois somos parte do ambiente da Terra. Entretanto, há um aspecto que complica a equação da sobrevivência ambiental: o desenvolvimento irresponsável, desumano, desigual, injusto e predatório. São as corporações transnacionais que exigem o crescimento econômico desenfreado sem o desenvolvimento humano, resultante da inclusão social e a preservação ambiental. Surge uma pergunta inquietante: será que cada pessoa entende seu papel individual e importante no desenvolvimento sustentável? Podemos responder preocupados – não parece que saibam. A partir dessa dúvida, vamos nos ater ao segmento das pessoas com deficiência.
O mundo tem sete bilhões de moradores e poucos realmente conhecem o risco da associação ao incorreto conceito que o habitat é infinito. A grande parte ainda pensa que não é problema urgente conviver com o nosso hospedeiro, sem vivermos como parasitas sem juízo.
Uma parcela de 15% das pessoas que reside na Terra apresenta alguma limitação funcional, mas isso não precisa reduzir sua participação na vida do planeta. De acordo com as estatísticas de cerca de 80 países, um bilhão é o quantitativo de pessoas com deficiência (OMS/ONU, 2011). A maioria sobrevive na pobreza, com dupla vulnerabilidade, refém de discriminação, exclusão e da falta de oportunidades. São humanos empurrados para fora do desenvolvimento sustentável. As pesquisas específicas sobre sustentabilidade nada esclarecem sobre as condições de vida e as demandas das pessoas com deficiência. Por sua vez, os pensadores sobre inclusão social desse segmento pouquíssimas vezes estabelecem a relação entre as pessoas com deficiência e o desenvolvimento sustentável dos humanos e das formas diversas da natureza.
A Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, deveria observar o que o preâmbulo da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, de 2006, diz: "g) Ressaltando a importância de trazer questões relativas à deficiência ao centro das preocupações da sociedade como parte integrante das estratégias relevantes de desenvolvimento sustentável."
Os países provavelmente discutiram de forma insuficiente a inclusão das pessoas com deficiência para o alcance do desenvolvimento sustentável. Mesmo ao considerar inclusão social como pilar da sustentabilidade, os documentos não mencionaram ou apenas enumeraram pessoas com deficiência, mas sem compromisso. A promoção social, a educação e a saúde para essas pessoas não foi tratada. O trabalho, a capacidade de pesquisa e de proposição de novas tecnologias sustentáveis por parte das pessoas com deficiência ficou de fora da agenda da conferência. Nem beneficiários e tampouco agentes para o desenvolvimento inclusivo – um bilhão de pessoas não farão parte das metas que vierem a ser definidas pela Rio+20. Até quando esse contingente populacional permanecerá segregado do futuro que nós queremos para todas as pessoas? Ainda nos resta acreditar que o documento final da Rio+20 trará a responsabilidade e a iniciativa de cada país quanto às pessoas com deficiência.


Profa. da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro e consultora de políticas públicas, inclusão social e acessibilidade.
Fonte: Inclusive: Inclusão e Cidadania

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O desenhista Maurício de Sousa fala sobre a criação de personagens com deficiências

MAURÍCIO DE SOUZA INCLUSIVO




Confira entrevista com o jornalista e cartunista que, além da Turma da Mônica, também criou personagens para homenagear pessoas com deficiência e mostrar por meio das histórias, um pouco do universo desse público, contribuindo para a educação e inclusão.
Mauricio de 
Sousa está ao lado de um desenho do personagem Bidu
Daniel Limas, da Reportagem do Vida Mais Livre

Maurício de Sousa é criador de histórias e de personagens que divertem, educam e inspiram a imaginação de adultos e crianças há mais de 50 anos. Em 1959, enquanto era repórter policial no Jornal Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo), criou seu primeiro personagem, o cãozinho Bidu. A partir de uma série de tiras em quadrinhos com Bidu e Franjinha (o dono do cachorro) publicadas semanalmente na Folha da Manhã, Mauricio de Sousa iniciou sua carreira.
Nos anos seguintes, Mauricio criou mais tiras, outros tablóides e diversos personagens — Cebolinha,PitecoChico BentoPenadinhoHorácio,RaposãoAstronauta etc. Até que, em 1970, lançou a revista da Mônica, com tiragem de 200 mil exemplares, pela Editora Abril. Hoje, entre quadrinhos e tiras de jornais, suas criações chegam a cerca de 30 países. Entre as revistas de histórias em quadrinhos mais vendidas do país, dez são de Mauricio de Sousa – atualmente, suas revistas respondem por 86% das vendas do mercado brasileiro.
O que poucos sabem é que além da Mônica, Cebolinha,MagaliCascão, Bidu e companhia, este jornalista e cartunista também criou alguns personagens para homenagear pessoas com deficiência e mostrar por meio das histórias, um pouco do universo desse público, contribuindo para a educação e inclusão. Luca, um garoto cadeirante, e Dorinha, uma menina com deficiência visual, inspirada na Dorina NowillSite 
externo., são os dois exemplos mais marcantes.
A primeira vez que Luca apareceu nos gibis foi em 20 de dezembro de 2004, na edição do Gibi da Mônica nº 222. O personagem ama os esportes, principalmente de basquete, e foi apelidado carinhosamente pelos novos amiguinhos de “Da Roda” e “Paralaminha”, por ser muito fã do cantor Herbert Vianna e da banda Paralamas do Sucesso. Já a Dorinha, foi a pioneira, e chegou às bancas no final de novembro deste mesmo ano.
Para conhecer um pouco melhor sobre seu trabalho, entrevistamos Mauricio de Sousa. Confira!
Vida Mais Livre: Quando e por que surgiu o interesse por personagens com algum tipo de deficiência?
Maurício de Sousa: A Turma da Mônica é um grupo de personagens que vivem e agem como crianças normais, como nossos filhos ou conhecidos. Todos nós temos amigos com algum tipo de deficiência e convivemos harmônica e dinamicamente. Aprendemos as regras da inclusão aí.
Consequentemente, não poderíamos deixar de apresentar, no universo dos nossos personagens, amiguinhos da turma que também tivessem algum tipo de deficiência. Até acho que demorei muito para perceber esse vazio nas nossas histórias.
Vida Mais Livre: Você se recorda de uma situação em que teve a ideia de criar o primeiro desses personagens?
Maurício de Sousa: Acho que foi quando criamos uma história onde um novo amiguinho da turma surgia de muletas. Ele participou de uma ou duas histórias, mas depois sumiu. Ficou a necessidade de mantermos esse tipo de convívio. E, posteriormente, fui buscar um cadeirante para preencher o espaço.
ImagemVida Mais Livre: Conte um pouco sobre o processo de criação da personagem Dorinha.
Maurício de Sousa: Quando pensei em criar uma menina cega, busquei uma referência. E me veio a figura de Dorina Nowill, da Fundação do mesmo nome. Dorina, líder, de inteligência brilhante, sem preconceitos (para com os videntes), elegante, preocupada com a causa de mostrar caminhos aos cegos. Tirei daí tudo da Dorinha.
Vida Mais Livre: Há uma frequência para ela entrar nas histórias?
Maurício de Sousa: Não. As histórias fluem. E quando um tema permite, ela entra.
Vida Mais Livre: Qual foi a repercussão entre as crianças?
Maurício de Sousa: Das melhores. Principalmente, quando a Dorinha, como personagem vivo, no antigo Parque da Mônica, aparecia. Daí era um auê. Todas as crianças se aproximavam dela para perguntar sobre seus hábitos, como fazia isso, como resolvia aquilo. E nossa artista que dava vida à Dorinha estava sempre muito bem preparada para falar como uma deficiente bem resolvida.
Vida Mais Livre: Você também criou o Luca, que é cadeirante. Como ele foi criado? Foi inspirado em alguém, assim como a Dorinha?
Maurício de Sousa: Para criar o Luca, conversei com os atletas paraolímpicos O que foi, para mim, uma descoberta e uma alegria. Eles são muito bem resolvidos, também. Entusiasmados, alegres, espertos, inteligentes. Com o moral lá em cima. Foi fácil transpor esse clima para o personagem, que continua acontecendo muito fortemente nas nossas histórias. A ponto de a Mônica, nos quadrinhos, estar meio de asinha caída para o Luca.
Vida Mais Livre: E novamente, qual a reação das crianças?
Maurício de Sousa: Mais uma vez, a curiosidade da criançada, mais sua ousadia, fizeram do Luca um repositório de informações sobre o que é e como é fazer tudo a bordo de uma cadeira de rodas.
Vida Mais Livre: Além da Dorinha e do Luca, há também o André, com autismo, e uma com Síndrome de Down, correto? Conte um pouco mais sobre estes personagens?
Maurício de Sousa: O André nasceu de um estudo que fizemos para uma campanha. Saiu uma revistinha muito gostosa, que serviu e serve para muita gente entender um pouco melhor o autismo e suas diversas manifestações. Já, a menina com down, é mais recente e ainda não suficientemente utilizada nas histórias e pouco conhecida, está ainda em fase de estudos. Devido à variação de graduações que o down apresenta. Ainda estou buscando em que nivel está a menina.
Vida Mais Livre: Além dos gibis, esses personagens com deficiência farão parte de DVDs, vídeos educativos, de algum projeto especial, etc.?
Maurício de Sousa: Todo o material educacional que produzimos e que estamos planejando terá a participação desses personagens. Sempre com mostras de como vivem numa comunidade onde se instalou a inclusão.


ImagemVida Mais Livre: Há casos de pessoas com deficiência em sua família ou amigos próximos?
Maurício de Sousa
: Sempre há em todas as famílias. Desde criança, até os idosos, no final de suas energias. Todos tivemos contato com deficientes. Faltava é a conscientização que agora se percebe.
Vida Mais Livre: E na sua empresa, há muitos empregados com deficiência? Como vocês lidam com a inclusão?
Maurício de Sousa: Há alguns, sim. Numa convivência onde a gente até se esquece que um ou outro tem alguma limitação. Porque, como sempre, eles rompem os limites. E nos integramos. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O amor!



Palavras simples
Palavras sussurradas
Para acalmar
Algum motivo para sorrir
Milhões para chorar

Se o tempo passa
Porque não o seguimos?
Não podemos parar as horas
Mas podemos aninhar
Nossa carência em algum colo

A origem da natureza
Deus não criou primeiro o universo
Criou o amor...
Não duvide jamais duvide da sua força

Poucos provarão do seu sabor
Muitos o confundirão com a matéria
Muitos passarão sem saboreá-lo
Não o procurem na parte externa
Ele se refugia em nosso interior.
A parte mais oculta
Da nossa consciência
Outro ser habita
Ele precisa desses momentos de fé

Ele precisa da vida alicerçada na ternura
Se eu me der, não fuja de mim.
Nunca mais fuja de si mesmo
Mesmo sem me ver, eu sempre estarei aqui...
O Amor!

Autora
Liê Ribeiro
Mãe do Gabriel/autista.
15/06/2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

Pequenos avanços, grandes conquistas - AEE







"Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação"
Poeta Mario Quintana


 Fragmento do poema:

Só o Calor do amor vence o frio do viver!

Mesmo que eu congele,
Mesmo que eu me afogue
Nos pingos das minhas lágrimas
Não desistirei de te alcançar
Marujo de mares distantes

Soldado solitário 

Da sua própria guerra interior.
Venceremos...
Quem pensou que eu desistiria?
Enganou-se, morrerei lutando.

Até o ultimo minuto de nossa existência
Até o fechar da cortina...
Um dia conheceremos a verdadeira felicidade
Desprovidos de toda limitação humana
Haveremos de conhecê-la acredite!


Autora
Liê Ribeiro

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O SENHOR DA MINHA FÉ - Frei Betto



O SENHOR DA MINHA FÉ
(Frei Betto, Brasil)

Não creio no deus dos magistrados, nem no deus dos generais, ou das orações patrióticas.

Não creio no deus dos hinos fúnebres, nem no deus das salas de audiências, ou dos prólogos das consti­tuições ou dos epílogos dos discursos eloqüentes.

Não creio no deus da sorte dos ricos, nem no deus do medo dos opulentos, ou da alegria dos que roubam do povo.

Não creio no deus da paz mentirosa, nem no deus da justiça impopular, ou das venerandas tradições na­cionais.

Não creio no deus dos sermões vazios, nem no deus das saudações protocolares, ou dos matrimônios sem amor.

Não creio no deus construído à imagem e semelhança dos poderosos, nem no deus inventado para sedativo das misérias e sofrimentos dos pobres.
Não creio no deus que dorme nas paredes ou se es­conde no cofre das igrejas. Não creio no deus dos natais comerciais nem no deus das propagandas colo­ridas. 

Não creio no deus feito de mentiras, tão frágil como o barro, nem no deus da ordem estabelecida sobre a desordem consentida.

O DEUS da minha fé nasceu numa gruta. Era judeu, foi perseguido por um rei estrangeiro, e caminhava errante pela Palestina. Fazia-se acompanhar por gente do povo; dava pão aos que tinham fome; luz aos que viviam nas trevas; liberdade aos que jaziam acorrenta­dos; paz aos que suplicavam por justiça.

O DEUS da minha fé punha o homem acima da lei e o amor no lugar das velhas tradições.
Ele não tinha uma pedra onde recostar a cabeça e confundia-se entre os pobres...

O DEUS da minha fé não é outro senão o Filho de Maria, Jesus de Nazaré.

TODOS OS DIAS ELE MORRE CRUCIFICADO PELO NOSSO EGOÍSMO.

TODOS OS DIAS ELE RESSUSCITA PELA FOR­ÇA DO NOSSO AMOR.

(Extraído do livro Salmos Latino-Americanos)

terça-feira, 22 de maio de 2012

PAIS DE CRIANÇAS COM PARALISIA CEREBRAL


As palavra que seguem são de um lindo jovem chamado Jorge, autor do blog http://jorgecamposrodrigues.blogspot.com.br/ . Jorge tem paralisia cerebral e como ele mesmo afirma nem por isso é menos ou mais que os outros. Ficam ai suas dicas para os papais e mamães:

SER PAI E SER MÃE É UM DESAFIO FEITO DE MOMENTOS DIFÍCEIS E MOMENTOS MARAVILHOSOS


1. O VOSSO FILHO É UM MEMBRO DA FAMÍLIA COMO OS OUTROS
POR ISSO, tratem-no como tal, acarinhem-no mas não o amimem, amem-no, mas não o super proteja
.
2. O VOSSO FILHO NASCEU DO CASAL, POR ISSO AMBOS SÃO RESPONSÁVEIS POR ELE. PORTANTO, partilhem as tarefas, tornar-se-á assim a vida mais fácil e o vosso filho sentir-se-á mais feliz.
3. TENTEM NÃO CRIAR BARREIRAS ENTRE VÓS E OS OUTROS, DIGAM DE INÍCIO A VERDADE SOBRE O VOSSO FILHO, podem ter a certeza que depressa se criará à vossa volta um círculo de pessoas que vos quererão ajudar.

4. PEÇAM AJUDA E ACEITEM A QUE VOS OFERECEREM. OS OUTROS SÓ VOS PODERÃO AJUDAR SE LHES FOR DADA A OPORTUNIDADE PARA ISSO. PORTANTO, deixem que os tios, primos, avós e vizinhos tratem dele quando necessário - eles saberão, se os ensinarem, a cuidar dele até vocês regressarem. Sentirão, assim, que os outros colaboram e o vosso problema será repartido e mais leve.

5. TENTEM QUE AS OUTRAS CRIANÇAS BRINQUEM COM ELE. Expliquem-lhes que o vosso filho aprecia a brincadeira, apesar de não poder mover-se como eles.

6. AJUDEM OS OUTROS A PERCEBER O VOSSO FILHO, RESPONDENDO ÁS SUAS PERGUNTAS. Acreditem que o melhor meio de mentalização da sociedade são os pais, através do seu comportamento natural.

• Subsistemas sociais (apoio social laboral)
• Centro Regional de Segurança Social
• Centro de Saúde
• Hospital
• Santa Casa da Misericórdia
• Associações de Pais.

7. MÃE, QUANDO ESTIVER MESMO CANSADA, NÃO DEIXE QUE A FALTA DE PACIÊNCIA CHEGUE. Descanse, descanse mesmo. Saia com o marido ou com os amigos. Acredite que o seu filho beneficia mais de uma mãe feliz e descansada durante duas horas do que de uma mãe cansada durante todo o dia.

8. É IMPORTANTE QUE OS PAIS CONTINUEM A TER VIDA DE CASAL, tão importante é para vós como, para o vosso filho sentir que tem pais unidos .

9. AJUDEM O VOSSO FILHO A APRENDER A COMPORTAR-SE SOCIALMENTE. Na aprovação dos pais a criança começa a perceber o que deve ou não fazer CONTUDO, não o critiquem continuadamente, estimulem as atitudes correctas, não esqueçam que o estímulo ou desaprovação deverá ser dos dois - pai e mãe.

10. O FUTURO DO VOSSO FILHO É CONSTRUÍDO DEGRAU A DEGRAU. Ajudem-no a desenvolver ao máximo as possibilidades presentes e estimulem-no a atingir a etapa seguinte. Tristezas, preocupações, esperanças em milagres não ajudam, só prejudicam. Progresso, só um pequeno que seja, permite manter a esperança de que haja outro passo em frente.

11. EXPRIMAM AS VOSSOS OPINIÕES, PERGUNTEM TUDO O QUE FOR NECESSÁRIO PARA VÓS E PARA A VOSSA CRIANÇA. Do vosso contacto diário com a criança, vão conhecê-la melhor que ninguém. Os técnicos estão em função de vós e do vosso filho.. Juntos, pais e técnicos formam uma equipa coesa.

12. APESAR DE O VOSSO FILHO PODER ESTAR DEPENDENTE FISICAMENTE DE VÓS ELE EVOLUI. PORTANTO, comportamento a ter com o vosso filho aos 12 meses não deverá ser o mesmo a ter com ele aos 2 anos e assim progressivamente.

13. TORNAR A CRIANÇA INDEPENDENTE É VERDADEIRO AMOR. O vosso filho tem o direito de crescer e ser ele próprio. A ser tão independente quanto possível. Algumas falhas que surjam na vossa relação com ele são naturais e fazem parte da descoberta que pais e filhos partilham através de uma relação íntima que se está a formar e desenvolver.

sexta-feira, 30 de março de 2012

AUTISMO: O AMOR É AZUL?




Imagem publicada – a fotografia de uma criança, de costas, comtemplando o vasto oceano que está à sua frente, com uma forte luz de crepúsculo se anunciando, iluminando o mar. Ele está sentado sobre uma rocha, qual aquela que fundamentaria nossas formas de amar. E abaixo desta foto esta a palavra AUTISMO com cada letra maiúscula em uma cor diferente, como são os autistas; com a letra A em azul,U em rosa, T amarelo, I vermelho, S violeta, M verde, O em laranja como um pequeno sol que precisamos reconhecer seus brilhos e intensidades diferenciadas, como os reconhecemos na passagem das horas e do tempo... A criança está em isolamento, isolada, solitária ou autísticamente em comunhão com a vastidão?

Homenagem ao DIA INTERNACIONAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O AUTISMO

O amor é azul quando estou com você (L'amour est bleu Quand je suis à toi)

Nos Anos 60/70 surgiu uma música que retoma minha memória. É repleta de boas e intensas lembranças. Vivia a plena era do que chamávamos de ‘’Flower Power’’, ou seja, nos intitulávamos de hippies, roqueiros ou chamados de subversivos. Só escutávamos os Beatles ou Rolling Stones, e, apesar da contracultura, dançávamos ao som de um bom vinil orquestrado. Ainda não tinhamos perdido o Pasquim e o Millôr.

A música que insiste em voltar na minha mente é: L’amour est Bleu. É uma gravação de uma orquestra típica e famosa daqueles anos: Paul Mauriat. Esta canção orquestrada foi o fundo de muitas e românticas histórias de minha geração. Uma geração que vivia entre uma ditadura militar e o sonho de outra liberdade.

“Dançávamos” tristemente também, sob tortura, nas nossas dores físicas e psíquicas, nos interrogatórios e nos pau-de-arara,,, O amor não era então mais azul? Tínhamos de endurecer, pero sin perder la ternura...

Mas os que me leem estão se perguntando o que tem a música de Mauriat com o Autismo? Primeiramente diria que em todos 02 de abril, em todo o mundo, se comemora o Dia Internacional sobre o AUTISMO, uma data criada para que o termo e a condição de saúde possam ser mais bem compreendidos e os preconceitos serem demolidos. E a cor adotada para marcar esta conscientização é o AZUL...

Então por que uma lembrança dos Anos 60 me toma sempre que chegamos perto do dia 02 de abril? É que o AZUL, O love is BLUE, O amour est BLEU também trazem um outro tema junto com a música e sua letra. Trazem-me uma frase do psicanalista Bruno Bethelheim: ‘’ só o amor não basta’’.

Este psicanalista, que também experimentou as agruras de um período de repressão e limitações da liberdade, escreveu um livro que muitos de nós psi utilizamos nas reflexões sobre os autismos: “Love is not Enough: The Treatment of Emotionally Disturbed Children”. Ou seja, para o tratamento de crianças com distúrbios ou desordens emocionais "só o amor não basta".

Bethelheim fez sucesso no mesmo período de Paul Mauriat. Mas suas experiências na Escola Instituto Sonia-Shankman em Chicago para crianças psicóticas, em Chicago, construíram um dos primeiros mitos sobre os autistas e suas famílias. É dele a teoria que as mâes do tipo "geladeira", ou seja, esterotipadas e diagnosticadas como distantes e frias, em seus afetos confusos com seus bêbes, seriam as responsáveis pelos quadros de autismo ou psicose infantil.Incapazes de amar?

Essa teoria perdurou por alguns anos. Em meados dos anos 80 começou a ser questionada e demolida, por falta de fundamentação experimental e científica. Mas a idéia de culpabilização dos familiares perdurou. Ainda há os que vêem nos familiares a principal gênese dos diferentes transtornos invasivos do desenvolvimento.

Bastaria que utilizássemos as idéias de outro psicanalista, no caso Winnicott, para repensar as teorias de Bethelheim, para quem a disciplina era um dos meios e métodos de cuidado com as crianças consideradas autistas. Para o psicanalista inglês as mães não são necessariamente perfeitas ou imperfeitas. E, por sua experiência prévia como pediatra, além dos casos que cuidou, bastaria que fossem "good enough mothers". Ou seja, mães suficientemente boas...

Winnicott indagou, com precisão, se o conceito de autismo não se deu como uma ‘’invenção’’. Foram os conceitos de Kanner, Spitz, Bethelheim que tornados ‘’verdades científicas’’, mesmo sem a devida comprovação, que forjaram sistemas de pensamento que dificultaram ou impediram a construção de novas cartografias sobre os sujeitos submetidos aos diagnósticos de autismos. E daí para suas institucionalizações foi dado um simples e pequeno passo...

É aí que indago sobre a visão romântica que precisa ser desmitificada sobre o universo das famílias e das pessoas com autismo. Já escrevi que uso o termo no plural, ou seja, autismos, para revelar as diferenças e as nuances de cada sujeito que os vivencia. Temos de abrir, da forma mais ampla possível, nossas percepções e conceitos sobre estas vidas e seus transtornos. As pessoas que os amam, ou não, também são plurais...

Mas o nosso amor pode se tornar AZUL no contato com pessoas que vivem e supervivem os autismos? Já expliquei este contágio em texto anterior descrevendo minha experiência em psiquiatria com um jovem com autismo. Ele me ensinou os primeiros passos questionadores da práxis do cuidado de diferentes transtornos invasivos do desenvolvimento.

Na minha experiência guardada com muito afeto ainda tenho aquele artista da água bem fundo no meu corpo e vida. A presença da frustração e dos milhares de sentimentos que um autista nos desperta me ensinaram, e ainda preciso aprender mais, sobre o respeito as sua singularidades. Não é fácil aprender a amá-los em suas multicoloridas formas de ser e estar.

Portanto, retomando o texto de Bethelheim, talvez endurecido por suas passagens por torturas e privações em campos de concentração nazista, criou-se um mito sobre o amor dos autistas, de suas famílias, e, em especial, das mães. Para elas é que escrevo e dedico, também, esta reflexão.

Precisamos lembrar os outros que estão por trás destas mulheres. Parodiando o poeta Whitman diria que estão por detrás delas também "grandes homens". Há hoje os milhares de pais que são suficientemente bons. Estes também merecem nossas homenagens e nossos doces abraços.

Por isso, no dia da conscientização sobre os autismos vamos lembrar também dos que se dedicam de ‘’corpo e alma’’ na defesa dos direitos de seus filhos, assim como dos filhos de outros, independentemente de seus ‘’diagnósticos’’. Estes são os que já compreenderam a necessidade de ir além do amor. Compreenderam que ele é Azul e fundamental.

Mas só o amor não basta, é preciso, hoje o reconhecimento e a realização dos direitos humanos de pessoas com autismo...

Podemos tentar é ampliar a ‘’máquina do abraço’’ de Temple Grandin, reconhecer a multiplicidade etiológica destes transtornos, avançar no reconhecimento de sua pluralidade sintomatológica, não reduzir aos esquemas biologizantes de algumas teorias, não simplificar e naturalizar, retomando as velhas teorias psicanalíticas e seus teóricos, o que é tão vasto como a Terra...

Não é só o cérebro de um sujeito com autismo que é maior. São também maiores as suas formas de comunicação apesar de ainda estarmos engatinhando na sua compreensão e tradução.

Por isso repito mais uma vez: A TERRA É AZUL e o AUTISMO TAMBÉM.... o meu coração anda cantando em azul, e dia 02 estarei vestindo essa ‘’romântica’’ cor.

Por falar em direitos, uma última pergunta: quantos são, como vivem e como vem sendo cuidados/assistidos/educados/tratados/institucionalizados/incluídos ou excluídos, e, principalmente, amados os autistas e os autismos no Brasil?

Copyright jorgemarciopereiradeandrade 2012-2013 (favor citar o autor e as fontes em republicações livres pela Internet ou outros meios de comunicação de massa)

PS - Não podemos esquecer do Dia Internacional de conscientização e "saída das sombras" das EPILEPSIAS - O "PURPLE DAY", pois que os sujeitos com epilepsia também vivenciam os mesmos processos de exclusão, estigma e estereótipos das difersas formas de transtornos invasivos de desenvolvimento. Foi no dia 26 de março, uma data também muito especial para mim...eu nasci, e Beethoven morreu.

SOBRE O TEMA NA INTERNET –

Paul Mauriat: ♫ L'Amour est bleu (Love is Blue) ♫ http://www.youtube.com/watch?v=Z3nzFCESeME
Sucesso de Paul Mauriat e sua orquestra em 1968, "L'Amour est bleu" ("Love is Blue") é uma composição de Pierre Cour e André Popp, que a gravou originalmente em 1967. A canção foi enorme sucesso não só na França, mas também em vários países do mundo, e recebeu inúmeras gravações, como as de Caravelli, Claudine Longet, Clementine, Gabor Szabo, Jeff Beck, Los Indios Tabajaras, Michel Fugain, Michele Torr, Ray Conniff, Richard Clayderman, Sandpipers, Santo and Johnny, The Dells, Vicky Leandros...


Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo
http://www.mundoasperger.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=79:dia-mundial-de-conscientizacao-sobre-o-autismo-&catid=38:artigos-&Itemid=55

Bruno Bettelheim http://pt.wikipedia.org/wiki/Bruno_Bettelheim

1 in 88 kids have autism in the US: CDC
(1 em cada 88 crianças têm autism nos EUA: Segundo o CDC) http://theautismnews.com/2012/03/29/1-in-88-kids-have-autism-in-the-us-cdc/

Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista - http://www.senado.gov.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=92246&tp=1

Programação alusiva ao Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo – Fortaleza http://www.inclusaoediversidade.com/2012/03/programacao-alusiva-ao-dia-mundial-de.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+inclusaoediversidade+%28Inclus%C3%A3o+e+Diversidade%29

Purple Day, dia mundial de conscientização da epilepsia no mundo pela primeira vez no Rio de Janeiro http://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=197073

Livros citados no texto e indicados para leitura:

SÓ O AMOR NÃO BASTA – Bruno Bethelheim, Editora Martins Fontes, SP,1976.
AUTISMO – Clinica Psicanalítica , Ana Elizabeth Cavalcanti e Paulina S. Rocha, Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, SP, 2001.

LEIA TAMBÉM NO BLOG:
A TERRA É AZUL E O AUTISMO TAMBÉM http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/03/terra-e-azul-e-o-autismo-tambem.html

UM AUTISTA PODE VIR A SER UM ARTISTA COM A ÁGUA? http://infoativodefnet.blogspot.com/2010/04/um-autista-pode-vir-ser-um-artista-com.html

ASPERGER, UMA SÍNDROME DE MENTES BRILHANTES OU NÃO? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/asperger-uma-sindrome-de-mentes.html

FREUD E A "INVENÇÃO" DA PARALISIA CEREBRAL http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2010/09/freud-e-invencao-da-paralisia-cerebral.html

O RETORNO DA INTEGRAÇÃO PELA INCLUSÃO: novos muros nas escolas, fábricas e hospitais... http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/12/o-retorno-da-integracao-pela-inclusao.html

ORGULHOS ´MÚLTIPLOS' - no combate a todos os preconceitos http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/06/orgulhos-multiplos-no-combate-todos-os.html
 

http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/03/autismo-o-amor-e-azul.html

quarta-feira, 21 de março de 2012

Você sabe "o que ensinar a seus filhos sobre crianças especiais"?


Diante do "imenso conteúdo" publicado no facebook  é sempre possível encontrar pessoas que se dedicam a compartilhar temas que nos interessam e nos fazem crescer como pessoas e como profissionais.
Assim é meu amigo José Antonio Klaes Roing, editor do blog EducaTube, um site "criado (em 2009) para indicar vídeos de e para educadores" além de tratar de recursos tecnológicos aplicadas na educação. Sua produção é tamanha que mal consigo acompanhar suas postagens.
Como sugestão de leitura, ele nos traz a tradução do texto "O que ensinar a seus filhos sobre crianças especiais" postado no blog lagartavirapupa.wordpress.com, criado por Andréia Werner, mãe de um garitinho autista que utiliza a rede para documentar as suas experiências e conquistas. Os textos originais em inglês estão no endereço: http://blogs.babble.com/babble-voices/ellen-seidman-1000-perplexing-things-about-parenthood/2012/02/29/what-to-teach-your-children-about-kids-with-special-needs/


Rabiscando...
"Para começar, não tenha pena de mim...
Ensine seus filhos para não sentir pena dos nossos...
Use o que eles tem em comum...
Ensine as crianças que há várias formas de se expressar...
Saiba que fazer amizade com uma criança especial é bom para as duas crianças...
Encoraje o seu filho a dizer "oi"...
Encoraje as crianças a continuar falando...
Dê explicações simples...
Ensine respeito às crianças com seus próprios atos...
Ajude as crianças a ver que, mesmo crianças que não falam, entendem...
Inicie uma conversa...
Não se preocupe com o constrangimento...".

Não deixe de ler os textos traduzidos na íntegra...pois estes são apenas os títulos. Vale à pena...divulgue e contribua com uma educação inclusiva.
Educar é um ato de amor.
 
fonte:  http://algunsriscoserabiscos.blogspot.com.br/2012/03/diante-do-imenso-conteudo-publicado-no.html

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

PENSE NISSO



``O mundo precisa saber que existem enormes diferenças de comportamento humano. As pessoas estão muito dispostas a descartar alguém que não responde como elas gostariam``,
John Elder Robinson

FONTE : Fábio Adiron

08 de Março - Dia Internacional da MULHER

Estamos nos aproximando do dia internacional da mulher, isso me fez recordar de um post que li em 2010 no blog acessibilidade siga essa ideia. Vale ver de novo: 

IMPRESSÃO DE UMA MULHER COMUM


Impressão de uma mulher comum
Por: Naira Rodrigues
Este artigo se propõem explicitar as impressões e pensamentos de um mulher comum, daquelas que não tem nada de especial, sem habilidades fantásticas ou talentos extraordinários.
Nos últimos tempos tenho me deparado com um crescente número de matérias, programas de televisão e documentários, tratando da temática da pessoa com deficiência do ponto de vista do dia-a-dia de pessoas extraordinárias. Só homens e mulheres, que fazem de sua vida algo fantástico, escalando prédios, cantando divinamente, escrevendo poesias, entre outros tantos talentos. Faz algum tempo que venho me perguntando com seria, na verdade a vida de cada uma dessas pessoas, com que "cara" acordam, como se sustentam verdadeiramente, quando choram ou riem. Confesso que sinto-me excluída desse hall de pessoas fabulosas e, para piorar, fui chamada para um desses documentários, uma proposta envaidecedora, uma vez que seria um filme sobre a vida de algumas poucas pessoas cegas escolhidas e eu, uma pessoa tão comum, fui escolhida!
Pois a coisa não era bem como eu imaginava, no dia da gravação, tudo pronto, um aparato enorme, todos prontos? Eu estava lá ansiosa esperando o que iria acontecer naquele dia.
Durante a filmagem me deparei com um diretor que estava montando um cenário que não parecia muito semelhante ao que representava meu dia-a-dia, enfim, coisas do cinema. Durante a entrevista para o filme, após algumas horas de exaustiva filmagem de movimentos e cenas, para mim, sem nexo, o diretor me faz a pergunta: E você quais seus talentos especiais? Como é sua rotina?
Parei por um instante, pensei no que deveria responder e disse: Meu talento especial? Minha rotina é como a de tantas mulheres que criam seus filhos sozinhas, acordo muito cedo, arrumo meus filhos para a escola, tomo meu café correndo, os levo pra a escola e sigo para o trabalho de metrô.
Ele insistiu: Uma mulher como você ativa, bonita, certamente tem algum talento especial, seus sentidos devem ser muito mais apurados. Você escreve? Canta? Faz algum esporte radical?
Bem, não vou ficar aqui relatando a situação na integra, mas foi isso, ele queria descobrir qual meu "super-poder" e, então quando eu contei detalhadamente minha rotina fui cortada do filme, não tinha o perfil que eles buscavam para aquele documentário.
Tenho a impressão que ainda queremos ver mulheres super poderosas, o mito do super-herói existe em toda a sociedade, mais dentro de nós, das pessoas que precisam mostrar seus poderes para sentir-se gente.
Onde ficam as mulheres, aquelas que tem suas vidas repletas de riscos, alegrias, tristezas, emoções, cansadas e com energia para recomeçar a cada dia.
A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência traz um artigo exclusivo para as mulheres com deficiência, afirmando que os estados partes devem promover a proteção pra todas as mulheres com deficiência em igualdade de condições com as demais mulheres do mesmo estado. Pessoalmente, sinto-me contemplada pela Convenção nesse artigo, uma vez que trabalho todos os dias em busca de ser mais uma na multidão, de estar em igualdade de condições, sem mitos especiais, sem compensações quase divinas por ser alguém que com uma deficiência, simplesmente teima em viver.
Talvez, esteja parecendo amarga nesse momento, mas, de verdade, fico pensando porque pessoas comuns, que cuidam de seus filhos, trabalham, pagam suas contas com dificuldades, utilizam transporte público, tentam estar bem com seu corpo, sua imagem, seus parceiros e, tudo isso, incluindo a deficiência, porque essas pessoas não estão na mídia, não fazem parte da representação social que estamos construindo a partir do modelo de uma sociedade para todos.
Bem, estamos em 08 de março de 2010, dia internacional da mulher, de qualquer mulher, da mulher comum, da mulher com ou sem deficiência, da mulher que ama e deseja ser amada, da mulher que vive intensamente cada minuto, daquela que é livre em seu pequeno mundo, daquela que sente-se presa em suas fantásticas vidas de heroínas?.

FONTE: http://acessibilidasigaessaideia.blogspot.com/